top of page

O que a Lua ainda decide



A Páscoa que a gente conhece chega embrulhada em papel brilhante, mas o que ela carrega dentro é muito mais velho do que qualquer vitrine consegue contar. Antes de ser domingo de missa ou feriado de chocolate, Páscoa era o nome que se dava ao espanto de continuar vivo quando a terra decidia abrir de novo. O mundo provando, mais uma vez, que escuridão não é destino. É passagem.


O equinócio de primavera no hemisfério norte, esse instante em que a luz e a noite se equilibram antes de a claridade ganhar, não é metáfora de teólogo nenhum. É o próprio planeta dizendo algo que depois todas as religiões tentaram traduzir em doutrina. Os sumérios já sabiam disso quando gravaram em argila a descida de Inanna ao mundo dos mortos. Uma deusa que escolhe atravessar a morte não para fugir dela, mas para entendê-la, e que volta transformada, devolvendo ao mundo a fertilidade que sua ausência tinha congelado. Os gregos contaram a mesma coisa com outro nome: Perséfone engolida pelo subterrâneo, a mãe Deméter fazendo a terra inteira definhar de saudade até a filha voltar. Não é coincidência que essas histórias existam em lugares e tempos tão diferentes. É o corpo humano reconhecendo, antes de qualquer elaboração mental, que toda vida depende de um ciclo de perda e recuperação. De entrega e renascimento.


O cristianismo não inventou esse ciclo. Reposicionou. A crucificação e a ressurreição seguem exatamente o mesmo arco: descida, três dias de escuridão, retorno. Mas o centro da história se desloca de um princípio feminino e cósmico para uma figura masculina e individual. E a diferença não é pequena. Onde antes havia a terra que se fecha e reabre, uma deusa que desce e volta, um ritmo que pertencia a todos porque pertencia ao próprio planeta, passou a haver um sacrifício único, irrepetível, acessível só pela mediação de uma instituição. O universal virou exclusivo. O cíclico virou linear. E o feminino, que não era apenas parte da história mas a força motriz dela, foi conduzido com delicadeza ao papel de quem chora ao pé da cruz. Nunca mais a deusa que decide descer.


Só que os símbolos são teimosos. O ovo permanece, e o ovo é o símbolo mais antigo de gestação e possibilidade que existe, anterior a qualquer escritura sagrada. A lebre permanece, e a lebre era o animal de Ēostre, a deusa anglo-saxã da primavera cujo nome a língua inglesa ainda carrega toda vez que diz Easter. E a data da Páscoa continua amarrada à lua: primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio. Isso quer dizer que, por baixo de todo o edifício teológico, quem ainda decide quando a festa acontece é o corpo celeste mais antigo da devoção feminina. A lua governa. A igreja obedece. E quase ninguém fala dessa inversão silenciosa.


A Páscoa real não está em calendário nenhum. Ela acontece toda vez que alguma coisa atravessa a própria escuridão e volta. A semente que apodrece antes de romper o solo. O luto que um dia não vira esquecimento, mas uma forma mais larga de estar presente. A compreensão de que morrer para alguma coisa, um hábito, uma versão de si mesmo, uma certeza que já não serve, é a condição para qualquer começo de verdade. Os antigos não precisavam de teologia para saber disso. Bastava olhar pro campo. Bastava prestar atenção no próprio corpo, que também tem seus invernos, suas dormências, seus retornos que ninguém esperava.


O que mais se perde quando a Páscoa é reduzida a uma única narrativa é justamente a possibilidade de que ela pertença a todo mundo. Não como crença, mas como experiência. Não é preciso professar fé nenhuma para reconhecer que a vida se organiza em quedas e recomeços, e que existe algo de sagrado nesse movimento, sagrado no sentido mais nu e mais honesto que a palavra consegue ter. A Páscoa real não pede que ninguém acredite em nada. Pede só que se perceba o que já está acontecendo. Na inclinação do eixo da Terra, no retorno da luz, na insistência absurda e bonita que toda forma de vida tem de continuar. Mesmo depois de tudo que deveria ter feito ela parar.​​​​​​​​​​​​​​​​

 
 
 

Comments


© 2024 - STELLA INDOMITA | Espelho de Circe. All rights reserved.

bottom of page